Sexta, 04 Janeiro 2019 - 18:29

Mais de 600 mulheres foram acolhidas pela rede de proteção do Centro de Referência e Atendimento à Mulher

Mais de 600 mulheres foram acolhidas pela rede de proteção do Centro de Referência e Atendimento à Mulher

“Fico me perguntando quando isso vai parar? Por que eu? O que eu fiz?” questiona D.S., aos 56 anos. Ela sofreu sucessivos episódios de abusos ao longo da vida – o primeiro quando tinha apenas 9 anos de idade. Após o caso mais recente, em agosto do ano passado em uma cidade litorânea do Rio, ela voltou para a Petrópolis e encontrou, no Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), a rede de apoio que precisava, ter acompanhamento e apoio emocional, destruído pelos episódios da vida. O caso de D.S. não é diferente de outras vítimas que recebem o acompanhamento semanal do órgão. E o crescimento no número de pessoas que buscam a proteção cresceu 45,85% comparadas a 2017. De janeiro a dezembro de 2018 foram 638 assistências prestadas às mulheres.

Ainda na infância, D.S sofreu o primeiro abuso sexual cometido pela irmã mais velha, que também era abusada pelo padrasto. Aos 15 anos, em busca de uma vida melhor mudou de cidade junto com os primos. Porém, na nova jornada começou a ser abusada moralmente, e explorada pelos familiares. Já aos vinte, D.S chega a Petrópolis para realizar um sonho profissional. Mas a nova profissão bem-sucedida, foi o marco de mais abusos no ambiente de trabalho. D.S não se calou, e na época, ao denunciar o agressor foi julgada e difamada por outras colegas de trabalho.

“O abuso não está no gênero – homem ou mulher, está no ser humano. Eu já briguei com o mundo, mas hoje tenho de fazer algo diferente. Mas todo dia quando eu saio de casa é uma batalha. Há mais de seis meses frequento as reuniões semanais no CRAM, pude perceber que essa batalha não é só minha e estar nesse acolhimento, junto com outras mulheres que sofreram o mesmo trauma que eu, me fortalece, me faz perceber que não estou sozinha” conta a vítima em meio a muitas lágrimas.

A psicóloga do CRAM, Liane Diehl, explica como é feito o acolhimento. Segundo ela, o primeiro contato com a vítima é feito de forma ampla, para uma avaliação do caso. A equipe observa a esfera jurídica, apresentando os direitos que a mulher possui. Em seguida um acolhimento com assistente social e finalizando com um panorama psicológico. Dentro deste contexto é identificado em qual estado do ciclo de violência essa mulher se encontra, avaliando seu estado emocional e grau de consciência sobre a violência sofrida.

“Quando essa mulher se sente acolhida e percebe que quem está do outro lado está ouvindo e aceitando a história que ela está trazendo, começamos a trabalhar o estabelecimento de um vínculo positivo com ela de confiança. Ouvir e não julgar. E assim acompanhamos o processo dela e orientando como ela deve manejar a essa situação”, pontuou a psicóloga do CRAM, Liane Diehl.

A história de D.S. se confunde a muitos outros casos, por vezes ocultados pela vergonha ou medo de denunciar. Criou dois filhos sozinha, e na primeira gravidez, por mais uma vez sofreu abusos sexuais do companheiro. Por medo e por querer preservar o bebê, dessa vez se calou e separou do agressor. “Por querer sempre dar o melhor para os meus filhos, eu trabalhava demais e fui bem ausente na vida deles. A gente tenta compensar a ausência com qualidade de vida, porém isso impediu a nossa afetividade, eles cresceram com o amor de outras pessoas e não com o meu. Essa é uma culpa que eu tenho e que eu carrego”, contou ela, emocionada.

Há seis meses, D.S sofreu o quinto abuso sexual em sua própria casa, onde o agressor era, como na maioria dos casos, um conhecido. “ Na hora eu entrei em estado de choque e não conseguia reagir. Me assustei e fiquei perguntando porque aquilo estava acontecendo, foi um misto de sentimentos. O que era para ser um encontro romântico virou um pesadelo. Me senti suja e muito culpada. Ainda tenho marcas pelo corpo e tem sido muito difícil conviver com tudo isso por mais uma vez”, contou.

“De acordo com a avaliação emocional da mulher, fazemos uma terapia individual para depois trabalharmos com grupo de terapia, onde elas vão direcionando o tema e, a partir dessa emergência, desse tema, eu faço uma provocação na percepção delas. É uma reunião com música, relaxamento, alongamento, consciência corporal para que elas percebam o corpo dela que geralmente é uma morada de dor. Abordamos o discurso de gênero, interface da violência doméstica com o uso de álcool e drogas e assim vamos retomando e resgatando essa mulher”, destaca a psicóloga do CRAM, Liane Diehl.

O estopim para D.S., explica, foi o abuso do então conhecido dela. No Cram, ela explica, “não existem pessoas descomprometidas com as mulheres” e completa:  “cheguei aqui tão ferida, magoada e fui tão bem acolhida de um jeito que eu nunca fui. Quando chegamos no CRAM, estamos com uma gama de problemas sociais, emocionais e físicos, pois no fundo as vítimas são mulheres sempre excluídas por gritarem por seus direitos. Todo acolhimento do CRAM melhora nossa autoestima e faz com que o medo e a vergonha sejam minimizados. Liberdade é denunciar um homem sem sentir medo”desabafou.

Trabalho do CRAM em 2018

O aumento no número de denúncias não é atribuído, necessariamente, ao número de casos. Ocorre que as redes de apoio e maior incentivo às denúncias tem aumentado, consideravelmente, a busca de mulher por ajuda no órgão. Estes dados mostram a importância do acompanhamento, das palestras e instruções que o CRAM tem realizado na cidade. O órgão humanizou o atendimento e o acolhimento às usuárias, e o resultado é perceptível no número de mulheres que retornam ao Centro de Referência.

“Em 2018, tivemos um crescimento também na experiência da equipe. Conseguimos resolver os casos sem perder nenhuma mulher. Nosso trabalho não é fácil, estamos a todo momento envolvidas em sanar a violência doméstica. Houve um crescimento de denúncia, pois hoje as mulheres sabem dos seus direitos e estão conscientes. Espero que 2019 seja um ano sem agressões e mais respeito”, destacou a coordenadora do CRAM, Cleo de Marco.

O CRAM, órgão subordinado ao Gabinete de Cidadania, realiza orientação jurídica, acompanhamento social e psicológico e trabalha em parceria com as delegacias de Petrópolis para atender à mulher em situação de violência – seja ela moral, verbal, patrimonial, física ou sexual. E ainda conta com um atendimento na sede do órgão, todas as quartas, de 14h às 16h, com a psicóloga Dra. Liane Diehl, que ministra um Grupo de Apoio Terapêutico (GATE), onde as mulheres são ouvidas, respeitadas e contam umas com o apoio das outras e da equipe do CRAM.

Para denunciar ou solicitar informações, basta ligar para o telefone 2243-6152 ou comparecer à sede do Cram, na Rua Santos Dumont, número 100, no Centro. O funcionamento é de segunda a sexta, de 8h às 17h. Em casos de emergência, a mulher pode ligar em qualquer horário para o número (24) 98839-7387, disponibilizado pelo órgão. Caso se sinta violentada de alguma forma, a mulher pode contatar a Polícia Militar pelos números 2291-5071, 2242-8005 ou 180, além de poder contatar via WhatsApp a emergência da Polícia Militar, pelo número (24) 99222-1489.

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